O velho sai do carro com ajuda de seu fiel cuidador.
O rapaz, que aparenta ter por volta de uns 20 anos de idade, delicadamente o retirou do carro e, conhecendo seu gosto, estende uma bengala feita de ébano, âmbar e marfim.
Ambos, o velho e o rapaz, estão agora parados à frente de uma casa caindo aos pedaços. As colunas que sustentavam o teto estavam comidas pela metade, e o teto naquele ponto já não se encontrava mais lá. Fazia quantos anos que havia deixado aquele lugar? Uns 100? Talvez uns 200. Não gostava muito de pensar naquela época. Ainda doía e fazia muito sentido tudo aquilo. Mas era exatamente por isso que tinha que voltar.
O velho agarrou sua bengala e fazendo gesto para que o rapaz o seguisse, começou a dar passos caducos até a porta, que em seu tempo tinha pequenas janelas, agora estraçalhadas. A porta coberta de musgo não foi incômoda de modo algum para se abrir, embora a maçaneta estivesse bem enferrujada. De trás, o rapaz não acreditava que com tantos lugares bonitos para passar seus últimos momentos, e com tanto dinheiro para se gastar, o velho preferisse passar seus últimos momentos naquela casa horrível, suja, abandonada.
Entraram em um cômodo que lembrava a cozinha. Na mesa se encontrava ainda uma garrafa de água tônica vazia e outra fechada. Talvez esperasse que algum dia tivesse aberto aquela garrafa, mas não podia fazer esta desfeita. Seria um insulto tomar a água de outra pessoa. Não se demoraram muito na cozinha e andaram por um corredor, o velho começando a ficar com os olhos marejados, relembrando antigos momentos.
Passaram por um quarto de hóspedes. O velho apenas parou à porta e lançou um olhar para dentro de onde teve diversas brigas com sua hoje bem sucedida prima. Todos sabiam de seu esforço, contrastante com o relapso que era o velho, contando apenas com seu nato talento de assimilar informação. Diferentemente dele, ela tornou-se reconhecida por mérito. Diferentemente dele, que se tornou reconhecido por sorte.
Olhou para o quarto ao lado. Aquele que um dia fora seu. Nele estavam as mais doídas. Teclas que soavam Mi menor. Uma pequena casinha de papel. Uma gaiola onde antes havia um pássaro azul. Todos estes fragmentos de um passado que quase o levou à loucura e ao suicídio. Estes ele deveria libertar pelo fogo. Mas não ainda.
Voltou-se para um amplo cômodo, que era a sala de jantar e a sala, só usada em ocasiões festivas pelo fato de ser junta da sala de estar, onde um dia seu avô passou muito de seu tempo. Ao andar pelo local reconheceu os santos da avó, uma época em que cria neles. Em que cria em algo. A urna que continha as cinzas do avô ainda estava lá. O velho passou os dedos pela urna e trocou um "oi" com uma antiga foto, já comida pelo tempo.
Voltou finalmente para seu antigo quarto e ao chegar lá, pediu para que seu cuidador sentasse com ele na cama.
- Sente-se um pouco comigo Jan.
- Sim Senhor Bansky.
O velho retirou de seu casaco de pele uma carta e um molho de chaves.
- Nesta carta estão todos os papéis das minhas propriedades, incluindo meus automóveis e motocicletas. Também consta aqui todas as senhas de meus bancos. Essas são as chaves da casa e dos carros e motos. É tudo seu.
- Mas Senhor Banksy, eu não poderia...
- De modo algum. Mas peço para que aceite. Fará bom uso de tudo isso eu tenho certeza. Agora por favor, deixe-me e vá viver a sua vida.
O rapaz sem entender tudo aquilo, pegou todos os itens e fez ainda uma reverência ao sair. Pegou o carro atônito enquanto tentava entender o que faria com tudo o que lhe foi dado. Enquanto isso, dentro de seu quarto, sentado em sua cama, o velho saca de seu casaco uma bela cigarreira de prata, cravejada de diamantes. Abre-a e puxa um cigarro. Do outro bolso do casaco ele puxa uma guimba, que é o nome dado ao isqueiro do estilo "Zippo". Dá passos vacilantes até seu antigo armário e abre a porta mais acima. O fluido ainda continuava lá.
O velho abre o Zippo e espirra uma boa quantidade de fluido de isqueiro para dentro do mesmo. Após carregá-lo, espirra o resto do conteúdo do frasco na cama e se senta, a cama agora encharcada de fluido. O velho acende seu cigarro com gosto. Ele ri, um riso genuinamente feliz enquanto na sua mente um último pensamento. Ele o verbaliza como se estivesse conversando com seu cuidador ainda.
- Heh. Esse lugar tá empoeirado pra cacete.
Após isso, o velho deita em seu leito, sua pira, e repousa o cigarro gentilmente no cobertor. Todo seu passado agora havia se juntado às cinzas do avô e o velho havia retornado finalmente ao lar.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário